Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

o fariseu

Um pente no bolso

28.11.15

Cigarro a queimar ao canto da boca, rima pronta entre os dentes separados, assobio fácil e afinado. Um lápis velho e mastigado equilibrava-se há anos na orelha direita, talvez desenhando o mundo entre pilosidades e bocados de estuque. Especialista em marquises, trouxe da guerra o jeito para alinhavar metais e alvenaria além de um dedo indicador pela metade. Era o dedo mentiroso, improvisava.

Homem de Marvila, nascido e criado na Lisboa do tempo do Bom dia e Boa tarde, levava os nomes de todos do bairro na ponta da língua. Correu o país em trabalhos e biscates, obras e construções, norte, centro, sul, este e oeste.

Pouco dado a questionar os desígnios da existência humana, Arménio desconfiava que era feliz ao regressar a Marvila á sexta-feira pela tarde, trocar as botas e o macacão ensebado por um banho quente enquanto assobiava as modas da ocasião. Pouco importava a melodia, o assobio exalava a sensação de dever cumprido, o toque de mais uma jornada aliviada pelo suor dos justos.

Cabelo puxado atrás pelo velho pente de algibeira, em mangas de camisa encaminhava-se para o Café da Marília numa passada que lhe era tão familiar como renovadora. O copo de vinho ao balcão, o relógio velho e amarelado pelo fumo, o poster do Eusébio, toda uma comissão de boas-vindas. Ali também era casa.

Ultimamente o trabalho tinha começado a escassear. Obras nem vê-las e os biscates eram cada vez mais raros e mal pagos, quando não gratuitos.



- Ò Arménio, tens de ir lá a casa dar-me um jeito á varanda, pago-te depois quando puder.

A amigos não ia dizer que não, obviamente. E  outros eram primos dos amigos, ou apenas amigos dos amigos.



- Mas isto para o ano é que parece que melhora, agora vai para aí uma crise..
 

As segunda feiras tornaram-se um martírio. Olhar para o carro parado sem conhecer rota ou razão para o tirar debaixo do alpendre. Os jornais do dia, a meia de leite e o Café da Marília sem ser sexta-feira.

E a segunda passou a ser igual á quinta, e a terça igual ao domingo, num borralho estava arrumada a semana. Uma ida ao Hospital de São José ver um tio internado a contas com um problema na vesícula, e estava feita a jornada. O banho de sexta passou a ser igual a todos os outros. Sem assobio.

- Ó Arménio, parece que lá para Angola é que se está a ganhar bem. Devias falar com o meu primo Vítor, ele anda a precisar de gente.



- Eu, voltar para África? Nem morto!

Mais um natal á porta e as poupanças a minguarem,  o seguro do carro caducado por falta de pagamento. Um aviso da EDP. Outro.  

- Era vender a merda do carro, mas pelo que me oferecem fico com ele.

Os cigarros a queimarem uns nos outros, as horas passadas em dias,  os ponteiros do relógio nas folhas gastas pelo sol a brotar num canteiro. Mais dois mesitos e estamos no verão. 

- Escuta lá, o teu primo Vítor ainda anda á procura de malta para Angola? Amanhã vou lá falar com ele.
 

Era quase meio dia quando a vizinha foi dar com ele. Suspenso no ar pelo nó duma gravata, olhos vazios a apontarem para o chão.

Nesse dia o Café da Marília fechou mais cedo.

tumblr_nyi0fioihU1rsbo1mo1_540.jpg