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o fariseu

The amazing life of Mr Thompson

27.11.15

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Os  olhos dela. Escondidos atrás das lentes grossas, num compromisso de se manterem afastados da realidade  esbarrando na luz que nos agride pela manhã. Não é um adagio, é talvez a declaração sincera de impotência perante todas as coisas do mundo. E o que são as coisas do mundo?

 

Queria mostrar-lhe o sol de Lisboa. Aquele sol que nos abraça pela manhã, nos sacode com paciência da letargia dos becos. De todas as coisas do mundo. Os becos onde ela iria franzir a testa, franzir pela potência da luz, das cores e das mãos que nos transportam pelas vielas onde velhinhos nos cumprimentam acenando lentamente com a cabeça. Mergulhar no som do elétrico a subir as calçadas em esforço, fugir como crianças de mão dada pelas avenidas velhas povoadas de janelas presas nas molas da roupa a secar. Aquela roupa branca. O cheiro a lavado nos lençois, as cobertas usadas na casa da minha avó que cheiravam sempre a Natal, o assobio do amola-tesouras que  me metia medo. Dizia a minha avô que agoirava mau tempo, e eu acreditava, naquela sabedoria que apenas os antigos têm, aquele temor reverencial de quem sempre viveu da terra onde uma tempestade vinda do diabo tinha a capacidade de queimar as provisões de um ano.

 

Queria que os olhos dela vissem a casa dos meus avós da minha infância, cheirassem a sopa que nos esperava no inverno e os refrescos de limonada no verão. Que conhecesse aquela liberdade afectuosa que só os netos conhecem com os avós, toda a linguagem corporal própria de quem se reconhece só pelo respirar. Aquele abraço forte e apertado que nos dão e que se perpetua na pele durante o resto da vida. Disse-te que ainda hoje os sinto? É verdade, ás vezes quando estou a dormir eles vão abraçar-me e eu fingo que não sinto e não acordo para não os assustar. E deixo-me ficar.

Queira mostrar-te todas as coisas do mundo. Embora saiba que as mais belas coisas do mundo são aquelas que reconhecemos , aquelas que nos trazem á memoria um frio na espinha, um beijo dado que ficou colado na memória sabe-se lá porquê.

 

E todos os dias. Todos os dias entre as luzes agressivas dos monitores, entre mesas e cadeiras de madeira sueca fingo que me interesso pelo que me dizem. Tornei-me no maior fingidor do mundo! Enquanto assentuo a corcunda própria dos zombies, misturo-me entre eles num perversos bailado bafiento, tresandando a morte lenta e putrefacta. Mudamos de camisola, de colarinhos, e dia após dia vemos as mesmas caras vazias e sem expressão, o mesmo cinzento a crescer nos cabelos, o mesmo grito de desespero que nunca sai, a chama a consumir-se em nome dum presente seguro, arrumadinhos como as cadeiras numa escola de autistas. Vejo os dias a crescerem-me nas unhas.

Um chefe de repartição que bate nas teclas com a raiva de quem grita com o mundo, aquilo não é escrever, é discutir com a máquina, todos os dias, uma e outra vez, será uma expiação de todas as suas frustrações, talvez. Acho que odeia tudo isto tanto como todos nós, o bater das teclas é a maneira de nos confessar, de empatizar com todos os que andam aqui á espera de amanhã. Provavelmente esperará até receber o relógio de ouro por altura da reforma. Sei que não vou estar cá para lhe dar os parabéns, já terei partido há muito para outras paragens.

Ele ficará, assim como muito ficarão.

 

Os olhos dela. Aquele jeito dengoso de chamar o dia. De acabar as frases sem muitas palavras.
Levantar pela manhã, olhar para a cama, despedir, até logo. Da luz que tropeça envergonhada pelas frestas de um estore reumático. Os pés despidos num chão frio, o espelho cheio de sono.
Pesar a água com sonolência, as gotas de um duche demasiado quente. O mundo a entrar devagar pelas fibras de um casaco grosso, o nevoeiro matinal que se encosta á cara.

O cheiro num cachecol da temporada passada.

Eram 6:50 quando olhei para o relógio e ainda riamos.