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o fariseu

Querido não mudei a Grécia

28.11.15

Nesta semana no Querido... "As pessoas não são números. A austeridade nunca resultou. O Syriza deu uma lição de democracia fazendo o referendo. A divida tem de ser restruturada. A Alemanha só cresceu porque teve perdão de dívida. A Islândia não teve austeridade. A Europa virou as costas à Grécia..."

Desde que a Grécia entrou no Euro, e até á crise do subprime, o PIB cresceu 32%. Os salários acompanharam essa espetacular subida, chegando a 75% de aumento, dez vezes mais que na Alemanha em igual periodo. Não se conhecendo descobertas de petróleo nos bosques de Sálonica, deduz-se que esse crescimento foi financiado artificialmente por divida pública - José Sócrates School of Economics.

Para combater a crise, a Grécia até hoje recebeu o equivalente a 54 planos Marshall (214% do seu PIB) e um perdão de 70%, o triplo do perdão concedido à Alemanha (22%). Relembrar que a dívida da Alemanha não foi contraída, foi imposta pelos outros bacanos das pistolas.

O PASOK e a Nova Democracia, quiseram referendar as medias propostas pelo FMI há anos atrás. O Syriza foi contra. A nossa democracia é melhor que a vossa porque nós não usamos gravata e o nosso ministro das finanças é o Bruce Willis. Yippie kay yay motherfuckers.

A divida grega foi restruturada entretanto várias vezes, passando primeiro de curto prazo com a banca privada (os maus) para longo prazo com a União Europeia e FMI (os péssimos). A taxa de juro actual é três vezes inferior da cobrada à Irlanda pelo programa de resgate e o prazo média da divida é actualmente de 16 anos, bastante mais relaxado que a média europeia. O valor do PIB gasto em juros é de 2,6%, cerca de metade de Espanha ou Portugal por exemplo.

Em 2012 o FMI (organização monetária composta por 188 países, 70% deles com um PIB inferior à Grécia) propôs 150 reformas e medidas para fomentar a competitividade e crescimento económico. Ninguém faz ideia que percentagem dessas medidas foi implementada, sendo que a Grécia mantem-se actualmente em 81º lugar no Ranking Global de Competitividade, a par do Irão e da Argélia. É portanto mais fácil e seguro abrir um negócio no Cazaquistão do que em Atenas. Comparativamente, Portugal (o tal que ia entrar em espiral recessiva segundo os nobeis de cenas) foi o segundo país do mundo que mais subiu no ranking em 2015, estando agora à frente de Espanha.

A Islândia, além dos vestidos da Bjork, teve um problema com papel comercial, não de dívida pública. Decidiu não pagar/resgatar os bancos. Antes de recuperar, o PIB caiu 40% e os ordenados tiveram uma desvalorização de 50%. O máximo que o PIB caiu na Grécia foi cerca de 30%, curiosamente os mesmos números que foram artificialmente criados.

Momento Gustavo Santos; As pessoas não são de facto números. Mas os números ao contrário das pessoas não mentem, não prometem, não são demagogos. São o que são. Números. Tal como os porquinhos da india.

Resumindo; Estado social da Dinamarca e conta bancária do Sudão. Uma economia completamente disfuncional baseada em oligarquias locais e lobbys à volta da função pública, um aparelho fiscal de mercearia e excepções proteccionistas á lá malucos do riso. Os armadores navais (16% da frota mundial) não pagam impostos porque o Onassis tinha uns óculos á maneira e sacou a ex do Presidente da América, a Igreja Ortodoxa (maior proprietário da Grécia) também não porque os padres têm super-poderes do espaço, subsidios para lavar as mãos, chegar a horas e comparecer ao trabalho, ilhas em que todos são cegos incluindo os taxistas, and so on, and so on.

Nunca na história das relações diplomáticas entre países, existiu um perdão de dívida ou restruturação tão grande. Apesar dos erros de avaliação, controle e implementação (leia-se cagada) por parte do FMI principalmente no primeiro resgate, a Grécia começou a implementar reformas e a dar os primeiros sinais de recuperação no final de 2014. Em Janeiro era a segunda economia com maior crescimento da zona euro.
Depois? Depois chegou o Syriza e os amanhãs que cantam.

Seis meses de negociações, soundbites e circo com fartura, olha eu na minha mota, olha eu a brincar com o Putin, olha eu a gozar com os alemães, olha eu em bancarrota.
Jogada de génio; Um referendo a uma proposta que entretanto já não existia. Vitória estrondosa.
Le Pen, Nigel Farage, Maduro e Fidel Castro já deram os parabéns.
Estamos conversados.

Compreendo a tentação dos gregos... Depois de anos a perder nos Jogos Sem Fronteiras, acharam que a solução era mudar de televisão. Entretanto aproveitaram para mudar também a decoração da sala e fazer uma marquise.
Quando chegou a factura, disseram;

- Olhe, a decoração está uma merda e a televisão não vale um corno porque continuamos a perder, portanto meta tudo como estava!

Boa noite e boa sorte.

 

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