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o fariseu

Em Portugal está tudo bem

27.11.15

Tendo o privilégio de trabalhar com gente de todo o mundo e arredores neste calhau inóspito, há no espaço laboral uma colega da Síria com quem comparto quase diariamente uma chávena de café. Uma mulher interessante, inteligente, obviamente a desempenhar funções muito abaixo das suas capacidades. Welcome to England.

Trocamos conversas de ocasião que invariavelmente acabam nos nossos países de origem. A família, os amigos, os hábitos, os costumes. E algures por aí, o café começa a ser mais difícil de engolir. O meu.

Não porque ela dramatize a situação do seu país, ou queira angariar simpatia alheia ou sentimentos de comiseração, pelo contrário, enfrenta tudo e todos com um sorriso nos olhos. E é isso que nos desarma. É isso que torna quase impossível conseguir transmitir-lhe aquela empatia de ocasião reservada aos coitadinhos.

Enquanto eu telefono para Portugal para falar com a família e amigos, ela telefona para a Síria na esperança que os seus ainda atendam o telefone. Enquanto eu ligo para saber do tempo, da vida, da bola e de todas as minudências que temos saudades quando estamos longe, ela liga para saber quantos amigos de infância estão a ser torturados e mortos pelo regime de Bashar Al-Assad ou ás mãos dos rebeldes, conforme o credo politico.
Enquanto eu vou alinhavando com este, aquela e o outro onde vamos festejar a passagem de ano, o natal, e os cafés de domingo à tarde, ela diz-me esperançosa que se toda a família ainda estiver viva em Janeiro, farão uma grande festa de aniversário para a sua Mãe.

Todas as manhãs lê na Internet os jornais locais, obituários, contagens de corpos. Enquanto eu leio sobre as últimas declarações de Gaspar, Seguro ou a imbecilidade do dia, ela lê sobre a localização das bombas que rebentaram a noite passada. Olha, costumava passar férias ali diz-me. Escombros e gente desesperada.

Só nos últimos dois meses morreram mais pessoas na Síria que nos últimos dois anos na Faixa de Gaza. Mas Israel e a Palestina são um assunto mais interessante para os media. Fanáticos, judeus, anti-semitas e americanos ao barulho num espaço pouco maior que o Alentejo, é uma receita infalível há anos.
A Síria praticamente deixou de ser assunto, ao fim ao cabo já andam a ser massacrados há dois anos…é pouco interessante repetir à exaustão que continua a morrer ali gente todos os dias.

Devido ao encerramento dos aeroportos, terá de apanhar um avião para o Líbano e depois fazer de carro o restante caminho até Damasco. Isto contando que consegue passar a fronteira, os road-blocks do exercito, as minas enterradas, e as blitz dos rebeldes. Com naturalidade assegura que vai correr tudo bem, já outros o fizeram antes.
Além disso tem a Mãe à espera.

Diz-me que tenho de conhecer o seu país mas que devo aguardar uns anos até que o reconstruam. Não quer o que o veja assim. Fala-me de um país lindo e cheio de história, de mercados e lugares perdidos no tempo, montanhas e praias, da capital habitada mais antiga do mundo.

Hoje, num novo ataque das forças rebeldes, o alvo foi uma escola nos subúrbios de Damasco. Morreram vinte e nove crianças e um professor.

Quando ia a sair perguntou-me;
– Então e Portugal, ouvi dizer que estão com problemas…

– Problemas?

…Não. Em Portugal está tudo bem.

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