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o fariseu

Andar de avião é espetacular

04.12.15

Se há coisas boas nesta vida, andar de avião é uma delas. Ora, levantar os costados da cama ás 04:15 para apanhar um avião às 08:00, quatros horas depois mesmo vivendo a trinta minutos do aeroporto é uma sorte só ao alcance dos predestinados. Se fosse a pé para o aeroporto demorava o mesmo tempo, no entanto não cumpriria as regras (as regras pá, está tudo nas regras) e pior, perderia o ritual de acasalamento colectivo do pré embarque.

Logo para abrir a pestana chegando ao aeroporto, temos de saltar do carro em andamento pois a autoridade não permite cá mariquices de despedidas peganhentas ali a engarrafar o trânsito. Andamento senhor condutor! Porta fora, cambalhota à frente, e o tio manda a mala pela janela. Adeussss. Foi-se.

Após a entrada estremunhada, os ecrâns informam os senhores passageiros que 38 vôos fazem o check-in no mesmo balcão. Olha a sorte. Dirige-se então o gado para uma fila única aos zigue-zagues, baias e torniquetes de volta aos parques da Disney ou Slide Splash no Algarve em Agosto, ali cara com cara, ombros com ombros com o hálito matinal de um familia de Alverca e um excursão de espanhois discutindo o tamanho das fichas do Casino da Figueira da Foz. O seu bilhete, bom dia, 45 minutos depois. Vai na coxia, ai tinha prefência no lado do avião? Pois vai do lado de dentro e já é um pau. Boa viagem.

A toque de caixa, encaminha-se a manada para o controlo de segurança. Mais baias e zigue-zagues e outros 45 minutos de transpiração. Gajos batidissimos no metier vão desçalcando os sapatos ainda na fila, computador no sitio certo, cinto já na mão, sapatos nos dentes. Velhas trambolhas engatam tudo esquecendo-se de tirar os pirex de aluminio da mala de mão, tenha calma minha senhora ponha lá o resto do arroz de polvo na caixa para passar na máquina. Câmaras por todo o lado, policias e seguranças a vislumbrar sinais de nervosismo. Caraças, não tenho nada de ilegal mas tenho de permanecer calmo. Um grandalhão com luvas de latex e ar guloso do outro lado a topar tudo. Gotas de suor. Tu tem calma pá!

Passada a entrada em Guantanamo, é tempo de deambular pelo free-shop. Que de free só tem o ar que se respira. Tempo para um café e um papo-seco mal amanhado então. Sentado na borda de uma cadeira, pondero fazer uma segunda hipoteca na minha casa para pagar a conta deste manjar dos deuses. Por sorte, não pedi mais um pastel de nata ou o orçamento do Natal ia com o boda.

Encaminhe-se para a porta 16. Delayed. Um clássico. Um grupo de gnus com o cio amontoa-se numa caixa de vidro a fumar. Ninguém fala com ninguém, ninguém vê ninguêm. O nevoeiro denso adivinha um Dom Sebastião a qualquer momento a saltar da caixa de vidro empunhando uma espada. Calma caneco, estou a delirar. Preciso de uma casa-de-banho com urgência, o café já está a fazer panelinha com a farinheira de ontem no estômago. Deixar a mala em algum lado está fora de questão, em vinte minutos estaria a ser espancado numa sala escura.

Levo então a malinha do Sport Billy rodando até aos lavabos mais próximos a 15 minutos de distância. Tenho o inimigo às portas, já sinto cabeçadas no forro das ceroulas. Dores, náuseas, suores frios.

O compartimento sanitário não permite entrar com a mala. Ou eu ou a mala, um dos dois vai ter que ficar à porta. E o inimigo ás cabeçadas. As regras caraças, as regras, nunca deixar bagagem sozinha! À comando agarro na mala e meto-a ao colo, efectuando uma acrobacia espetacular de equilibrio e precisão. Com as calças pelos tornozelos e agarrado à mala ao estilo Telma and Louise, respiro fundo enquanto ouço nos megafones o embarque no meu vôo. Olha, estou bonito estou. 

Dentes cerrados, Jerónimooo, vamos lá depressa! Depressa! Fartura cortada a meio, todo desfraldado e a ganir, eu e mala saimos porta fora da casa-de-banho em passo olimpico até à porta de embarque. Um balcão com cartões de crédito, o senhor venha cá que quero só fazer-lhe umas perguntinhas. Ó minha senhora saia-me da frente que eu tenho um avião para apanhar e se paro borro-me todo. Depressa, depressa!

Olá bom dia, bem-vindo a bordo. Enfim, 4 horas depois. Limpo o suor, meto a camisa para dentro e tento encaixar o tetris de malas no compartimento superior. Alguém que não tomou banho tenta ao meu lado encaixar um malão com um cadáver dentro no espaço de uma bola de ténis. Aeromoças a explicar por gestos que aquela manobra é impossível, as leis da fisica não permitem. O simpático hipópotamo sorri e deixa o malão desaparecer para os fundilhos do avião. Pede licença num inglês de Badajoz e senta-se ao meu lado. Pronto. Durante as próximas 8 horas vou estar fechado dentro desta cápsula de metal a trocar fluidos nasais com 300 pessoas.

O cavalheiro de elevado porte estica as pernas com dificuldade, luta com um casaco feito das costas de um urso polar e olhando para mim, mete conversa;

- Gosto muito de andar de avião.

- Eu também. É espetacular.

 

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